10 de agosto de 2006

Miréia - alguma transversão

Comecei a fazer uma transversão de Mirèio, de Frédéric Mistral. O interesse surgiu depois de uns e-mails com amigos, quando descobri que sabia quase nada de Mistral. Fui olhar o meu Mirèio que comprei sem nunca abrir e na hora já tomei gosto.

O texto original é em provençal e o autor usa uma escrita muito própria, que passou a ser chamada "grafia mistralesa", cheia de regionalismos e galicismos e que é bastante criticada por estudiosos do provençal. Por conta dessa grafia o texto acaba um pouco obscuro, algumas passagens são realmente difíceis de entender sem o apoio da versão francesa.

No esforço de ler o texto, acabei rabiscando uma tradução das primeiras estrofes. Nunca estudei provençal, mas saber um pouco de catalão e francês ajuda bastante nessas horas, sem falar de alguma intuição.

Segue, por ora, o resultado dessa minha pequena transversão. Procurei preservar o mais possível o ritmo e o aspecto formal. Quem sabe um dia eu não traduzo os 700 versos restantes?


***


Miréia (excerto)
trad. Fábio Aristimunho

........Canto uma moça de Provença.
........Nos amores de sua inocência,
desde a Crau até o mar, pelos campos de trigo,
........humilde seguidor de Homero,
........eu quero segui-la. Como era
........não mais que uma moça da terra,
deu que só na Crau fosse um nome conhecido.

........Ainda que seu rosto brilhasse
........só por ser jovem, e não lhe ornasse
sequer diadema de ouro ou finíssimo manto,
........quero que em glória seja alçada
........como uma rainha, e adulada
........por nossa língua desdenhada,
pois cantamos por vós, ó pastores dos campos!

........Tu, Senhor Deus da minha pátria,
........tu que nasceste entre os rupestres,
dá-me alento e incendeia estas minhas palavras!
........Tu sabes: em meio às verduras,
........nos primeiros raios da aurora,
........quando a figueira está madura,
vem o homem feito lobo espoliar toda a árvore.

........Mas sobre a árvore que ele esbulha
........tu preservas sempre algum galho
aonde não alcança a mão ruinosa do homem,
........belo rebento prematuro
........e oloroso e intocado e puro,
........belo madalênico fruto
aonde o pássaro do ar vem saciar sua fome.

........Eu bem o vejo, esse graveto,
........e seu frescor me deixa inquieto!
Eu vejo, em pleno céu, e o vento a balançá-los,
........seu ramo e seu fruto imortal...
........Bom Deus, Deus amigo, nas asas
........de nossa língua provençal,
permita que eu alcance o alto galho dos pássaros!

...


O original:

Mirèio
Frédéric Mistral

........Cante uno chato de Prouvènço.
........Dins lis amour de sa jouvènço,
A travès de la Crau, vers la mar, dins li blad,
........Umble escoulan dóu grand Oumèro,
........Iéu la vole segui. Coume èro
........Rèn qu’uno chato de la terro,
En foro de la Crau se n’es gaire parla.

........Emai soun front noun lusiguèsse
........Que de jouinesso; emai n’aguèsse
Ni diadèmo d’or ni mantèu de Damas,
........Vole qu’en glòri fugue aussado
........Coume uno rèino, e caressado
........Pèr nosto lengo mespresado,
Car cantan que pèr vautre, o pastre e gènt di mas!

........Tu, Segnour Diéu de ma patrìo,
........Que nasquères dins la pastriho,
Enfioco mi paraulo e douno-me d’alen!
........Lou sabes: entre la verduro
........Au soulèu em’ i bagnaduro
........Quand li figo se fan maduro,
Vèn l’ome aloubati desfrucha l’aubre en plen.

........Mai sus l’aubre qu’éu espalanco,
........Tu toujour quihes quauco branco
Ounte l’ome abrama noun posque aussa la man,
........Bello jitello proumierenco
........E redoulènto e vierginenco,
........Bello frucho madalenenco
Ounte l’aucèu de l’èr se vèn leva la fam.

........Iéu la vese, aquelo branqueto,
........E sa frescour me fai lingueto!
Iéu vese, i ventoulet, boulega dins lou cèu
........Sa ramo e sa frucho inmourtalo...
........Bèu Diéu, Diéu ami, sus lis alo
........De nosto lengo prouvençalo,
Fai que posque avera la branco dis aucèu!

...

4 comentários:

Paulo Ferraz disse...

Fala FAV, cara, ando sem e-mail no trabalho, por isso não comentei nada. Na próxima segunda eu levarei a edição que comprei do Miréio, é o seguinte, ela é anotada, então revela algumas referências específicas da Provença, acho que seria uma boa. Abraços
Paulo

Fábio Aristimunho disse...

Fala, Paulão.
Legal, bem que fazem falta de umas notas! E essa edição é acessível, fácil de achar? Eu tava mesmo querendo passar na Livraria Francesa pra ver o que que tem.
Abraço

Elisa disse...

fábio, gostei muito da paródia e do original :-) e perdi sua fala sobre poesia alheia na flap... se puder depois fazer um post sobre o assunto!
parabéns pelo blog!
elisa.

Fábio Aristimunho disse...

oi, elisa,

pode deixar que depois faço um post a respeito. de qualquer forma posso te mandar a revista FNX em que saíram o manifesto da poesia alheia e alguns poemas alheios, é só me dizer pra onde mando.

e legal que você gostou da paródia, pois eu jamais teria publicado se não tivessem feito isso por mim!

bjo.