5 de dezembro de 2006

Vêm aí: bolsas de criação literária da Petrobras e do Minc

Já faz um tempo tenho acompanhado as discussões sobre políticas públicas para a literatura, mas pouca coisa concreta vi surgir desde o pontapé inicial, até que neste segundo semestre as coisas começaram a mudar.

Pelo que me consta, o pedala-robinho das políticas públicas para a literatura partiu do Movimento Literatura Urgente, cujo manifesto já falava em bolsas de incentivo à criação literária, e que até motivou uma matéria cala-boca da Veja. Lembro que a questão também foi levada para a FLAP, quando foram convocados o Ademir Assunção e a vereadora Soninha para falar a respeito, e cujas conclusões, apesar de propositivas, pouco tinham de alentadoras. Mas, depois de tanta saliva, agora começaram a aparecer os primeiros frutos.

Este ano já teve o PAC - Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura de SP, que pela primeira vez concedeu bolsas de incentivo à criação literária. Em anos anteriores sempre houve incentivo ao cinema, ao teatro e às artes visuais, mas em 2006 alguém da Secretaria finalmente lembrou que também havia literatura a ser incentivada, junto com o hip-hop, a cultura quilombola e o circo. Não é demais lembrar que este blog divulgou em primeira mão os resultados das bolsas do PAC.

E tem corrido à boca pequena que o Ministério da Cultura e a Petrobras pegaram a carruagem e também vão conceder as suas próprias bolsas de criação literária. A idéia é boa, louvável demais, mas agora precisa ver na prática. Qualquer processo seletivo do MINC tem pré-requisitos como "valorização das expressões da diversidade cultural brasileira" e tropicalismos do gênero. Será que o processo dessas bolsas vai escapar a limitações como essa, que em nada contribuem à literatura de qualidade? Ou será que vai ser mais um veículo para o dirigismo ideológico que "como nunca na história deste país" temos visto tão em prática?

Sou um entusiasta mas também um cético, prefiro ver no que isso vai dar. Em tese o edital da Petrobras sai amanhã, dia 6/12 - e, saindo, quero ser o primeiro a falar mal. Aguardem os próximos capítulos.

Carpe diem.

7 comentários:

Fábio Aristimunho disse...

Deu n'O Globo:

"Literatura premiada

O Globo - 18/11/2006 - por Mànya Millen

O Programa Petrobras Cultural anuncia dia 6 de dezembro, data em que lançará sua edição 2006/2007, uma novidade que deve animar quem vive (e pretende viver) de literatura no Brasil. A partir de agora o Programa incluirá também bolsas para criação literária (ficção e poesia), uma antiga demanda do setor. Ao todo o segmento receberá R$ 800 mil, distribuídos em valores variados, de acordo com os projetos apresentados. Os detalhes só serão anunciados no próprio dia 6, mas a iniciativa pode render alguma polêmica, como a área gosta. Segundo a coluna No Prelo, valores, critérios de seleção e mesmo o próprio mérito das bolsas têm potencial para gerar discussões."

Carol Marossi disse...

Snoopio, olha aí outra chance para vocês! Ficarei torcendo.

Como eu faço para linkar os blogs de vocês, hein? Estou ultra perdida e confusa com o renascimento do blog antigo.

Besitos,
Carol

ana rüsche disse...

gostei muito do post - tá parecendo jornalista (isso pode ser um elogio para nós, advogados). acompanharei.

beijos

Márcio Bezerra disse...

Por aqui sofremos do mesmo modo, os incentivos do governo são anuais, quando não dão prefer~encia a escritores "estatais", "florestânicos", dão preferência a grupos excluídos socialmente, como os ribeirinhos da boca do rio sem nome na várzea atrás daquele monte que aqui não existe, festas populares, não tão populares assim, que se inventam muitas coisas etc. Já fiquei cinco anos seguidos de fora dessa peneira; o ultimo de meus projetos se chamava"identidade", inspirado no projeto, que não foi aprovado, em seu lugar outros não tão importantes e nenhum pouco inéditos, como por ex. " o batuque africano nas escolas". Penso que há uma apropriação dos governos, em busca do controle das massas, transparecendo uma democracia que serve somente apenas como forma de alienação e controle do povo. Não tenho nada contra o batuque africano sendo ensinado nas escolas acreanas, mas penso que seria mais importante a evidência da poesia acreana sendo mostrada ao público local. Preferam aprovar 10 projetos de livros de cordel a mil reais cada, que o meu que custaria 10 mil, afinal, o governo não poderia perder esses dez votos. Mas tenho esperança, o ano que vem será melhor. abraços....

Fábio Aristimunho disse...

Márcio, lamento em saber que aí no Acre as coisas também seguem a mesma lógica geral, mas também não fico nada surpreso. Populismo literário existe em toda parte, parece que é característia dos governos em geral.

Abraços e sorte com seus projetos.

Anônimo disse...

Caro Fábio, muito pertinentes suas palavras. Só uma ressalva: o Ademir Assunção não queria bolsas literárias nos moldes das que têm vindo à tona, ele queria um trem da alegria para ele e sua turma. A matéria do Jerônimo Teixeira, da Veja, desbaratou brilhantemente, à época, as intenções de Assunção.
Quanto às bolsas, infelizmente elas acabam sendo julgados pela esquerda da USP e da PUC (e em regra pelo pessoal acadêmico, que privilegia a literatura de recorte joyceano em detrimento dos da linha flubertiana), e quem não reza pela cartilha deles não tem muita chance. Não sei se vou participar mais desse tipo de concurso. Como diz o escritor e editor gaúcho Paulo Bentancur, "às vezes é melhor permanecer inédito a ser mal editado". Sei que a frase é meio absoluta, mas em certos casos ela é de uma pertinência assombrosa.
Um abraço.
Samir Thomaz

Fábio Aristimunho disse...

Samir, obrigado pela intervenção. É sempre bom conhecer diversos prismas de um mesmo assunto. Não me lembro bem da matéria do Jerônimo Teixeira, lembro mais da polêmica que ela gerou à época. De todo modo é muito bom ver que, apesar das suas bem fundamentadas ressalvas, ao menos há projetos de fomento à criação sendo postos em prática.
Um abraço