18 de janeiro de 2007

Epitáfios a Landor

Traduzir poesia é, como se diz, um verdadeiro exercício de criação. Só por meio da recriação/transcriação é possível enxergar pelo olhar do outro, ainda mais quando esse outro lhe é tão distante. E transplantar de uma outra para a nossa própria cultura o seu modo de ver o mundo, estabelecendo pontes de contato, não é só uma forma de ver o outro, mas também de enxergar a nós mesmos.

Em 2005 eu e uns amigos aceitamos o desafio proposto pelo Nelson Ascher de traduzir Epitaph, de Walter Savage Landor, para o português. Desafio aceito, apresento aqui o resultado do nosso exercício coletivo de recriação/recreação. Veja-se que as traduções resultantes são tão variadas, e ao mesmo tempo tão próximas, quanto o são as vozes que lhes deram forma - eis a maravilha da poesia traduzida!


Epitaph

I strove with none, for none was worth my strife.
Nature I loved and, next to Nature, Art:
I warm'd both hands before the fire of life;
It sinks, and I am ready to depart.

(Walter Savage Landor)



Seis epitáfios a Landor

1...Às rixas sem valor não sucumbi.
....Amei a natureza e, como a ela, à arte:
....Mãos no fogo da vida, me aqueci;
....Ele se expira, e parto - sem alarde.
...............(Geraldo Vidigal Neto)

2...Não lutei, pois ninguém o merecia.
....Natureza e arte amei, não sem porfia:
....As mãos fiz quentes no fogo da vida;
....Ele se esvai; eu me apronto à partida.
...............(Guilherme Almeida de Almeida)

3...Sem inimigos, ninguém fez por onde.
....Amante da arte e, mais, da Natureza:
....A vida pelo meu calor responde,
....Cessada a fonte, parto com presteza.
...............(Paulo Ferraz)

4...De ninguém discordei: discordar não valia.
....A Natureza amei, assim como amei a Arte.
....A Vida, cujo ardor minhas mãos aquecia
....E que agora se esvai, diz-me: - Estás pronto. Parte!
...............(Paulo Moura)

5...Sem rivais, com ninguém me desavim.
....Amei a Arte e, além dela, a Natureza.
....Me acolchoei na vida - chama acesa;
....tão logo esfrie, eis quando parto enfim.
...............(Fábio Aristimunho)

6...Não criei rivalidades, pois não vi rivais.
....Amei as Artes muito e a Natureza, mais.
....Quem me aqueceu as mãos foi o calor da vida.
....Sua chama expira: não me atrasem a partida.
...............(Nelson Ascher)


P.s.: Convido você a fazer a sua própria tradução do poema e partilhar aqui com a gente.

11 comentários:

Paulo M disse...

Saudades do tempo dessas traduções aí!

Paulo Ferraz disse...

Poxa, outro dia me lembrei dessa nossa empreitada. Valeu pelo resgate.

Rafael Prince disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Rafael Prince disse...

Rivais? Não houve algum que me era páreo.
À Arte e à Natureza tive apreço
A vida? Não foi mais que fogo frágil
Rarefeito em fumaça, eu me despeço.

(Rafael Prince)

Carol Marossi disse...

Orguuuuulho desses guris! Prazer enorme conviver com vocês todos!

Besitos para todos!

Fábio Aristimunho disse...

Ninguém mais arrisca uma tradução?

nelson disse...

Olá, Fabio.

Foi com surpresa que li a entrada de seu blog. Eu me lembrava da proposta/desafio, mas me esquecera totalmente da minha tradução que você publica. Joguei-a, então, no google desktop e, queixo caído, vi que era de fato minha. Olhei a data e vi que os dias em que foi feita estão associados a lembranças péssimas. Daí que eu provavelmente a tenha apagado da memória (a biológica) junto com outros detalhes daqueles dias/semanas. Como, em termos de psicologia e científicos, a história é superior à minha versão do epitáfio, mando outra para compensar. Espero que seja melhor que a anterior e, caso o seja mesmo, não suma em algum buraco amnésico da (des)memória.

WALTER SAVAGE LANDOR — EPITÁFIO

Nunca alterquei: ninguém esteve à altura.
Gostava da arte e amei a natureza.
A vida me aqueceu — sua chama pura
se apaga e vou-me embora sem surpresa.

Fábio Aristimunho disse...

Olá, Nelson,

Obrigado pela nova tradução. Encontrei neste blog uma menção de que você teria usado o Epitaph num curso de tradução para ilustrar as dificuldades do ofício:

http://www.inblogs.net/sheilaleirner/2005_09_01_sheilaleirner_archive.html

E desculpe publicar sem sua autorização, não imaginei que a tradução estivesse associada ao olvido. Meus votos para que a nova tradução permaneça bem lembrada.

Saudações

Marco Catalão disse...

Caro Fábio,
embora eu não tenha muito talento para a tradução, aí vai minha tentativa:

Não combati; ninguém valia a pena.
Gostei da arte e amei a natureza:
aqueci minhas mãos na chama acesa
da vida, e agora vou sair de cena.

(Marco Catalão)

† Elaphar † disse...

Eis a minha versão:

Não pelejei por nada, e nada a exigiu.
A Natureza amei, e a arte então a seguiu:
As mãos eu aqueci no fogo desta vida;
Agora esvai-se, pronto estou para a partida.


Ainda há o clássico de Fernando Pessoa:
Não combati: ninguém o mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei


Parabéns pelo Blog!

Thaís disse...

Não me exauri por ninguém, pois ninguém me valeu a lida.
A Natureza, sim, amei; e além dela, a Arte:
Aqueci meu ser na chama da vida;
Que se dissipa, e meu corpo parte.