16 de janeiro de 2007

O Código Mio Cid

Sempre ouvi de amigos hispânicos que o português para eles soava como um espanhol com arcaísmos. Sabia que essa impressão deles tinha algum fundo de verdade, afinal a recíproca é meio verdadeira, mas só tive a exata dimensão disso quando comecei a ler o Cantar de Mio Cid.

É um poema épico, o único épico da Idade Média hispânica e o primeiro em língua vulgar, com cerca de 3.700 versos em rimas assonantes e temática de romance de cavalaria. Seu autor é desconhecido, tendo sido escrito provavelmente entre os sécs. XII e XIII. O único manuscrito conservado data do Séc. XIV, faltando algumas páginas, entre elas a primeira.

O poema narra as façanhas de Rodrigo Díaz Vivar (1043-1099), o mio Cid do título, figura histórica da época da Reconquista. Mio era uma espécie de pronome de tratamento medieval, relacionado ao sistema de vassalagem – mio Cid era, literalmente, "meu" Cid, "meu senhor" Cid.

Tenho comigo duas edições: a da Editora Planeta, organizada por Colin Smith, uma das mais conceituadas, que traz diversas notas e um longo ensaio introdutório muito bom, e uma edição argentina, que traz o texto adaptado para o espanhol moderno, o que facilita bastante a vida do leitor leigo como eu.



O texto original é repleto de grafias que, para um nativo de língua espanhola, certamente devem lembrar mais o português moderno do que o espanhol. Fiz um rápido levantamento de algumas ocorrências que corroboram com essa impressão:

- palavras que ainda não tinham perdido o F inicial, o que viria a ocorrer posteriormente, ao que me consta por influência do basco: fablar (hablar), fazer (hacer), fermoso (hermoso), fartar (hartar), fijo (hijo), ferir (herir);

- ocorrência do cê-cedilhado: braços (brazos), calças (calzas), cabeça (cabeza);

- ocorrência de duplo S: assí (así), fuessen (fuesen), esso (eso), passar (pasar), missa (misa);

- palavras iniciadas em QUA, praticamente inexistentes em espanhol moderno: quanto (cuanto), quando (cuando);

- troca de B por V: cavallo (caballo), davan (daban);

- certas formas verbais: darvos (daros), mandavan (mandaban);

- em algumas poucas palavras, ocorrência do O grave em vez do ditongo UE: esforço (esfuerzo);

- outras palavras com grafia próxima do português: dexar (dejar), ovir (oír), agora (ahora).

Vê-se que meus amigos têm alguma razão quando dizem que o português parece – ao menos para o ouvido deles, hispânicos – um espanhol arcaizante.

Aproveito para registrar também alguns topônimos que aparecem no Mio Cid, que nada têm a ver com o português mas que são bastante representativos da evolução sofrida pela língua espanhola: Guadalfajara (Guadalajara), Castiella (Castela), Valençia (Valencia), Fariza (Ariza), Fenares (Henares), Sancti Yaguo (Santiago), Atineza (Atienza).

Destaque para um topônimo que me deixou bastante intrigado, que aparece neste verso:

¡d'aqueste acorro.....fablará toda Espanna!
[“deste feito.....falará toda a Espanha!”] - 23ª tirada

Veja só. Ao contrário do que sempre pensei, a Espanha não é uma invenção dos reis católicos, que ao consolidar o estado nacional espanhol teriam artificialmente invocado a Hispania romana para justificar algum direito territorial e ancestral sobre a península. Como o verso demonstra, o sentimento de "hispanidade" já era de alguma forma sentido pelo menos três séculos antes!

Termino arriscando uma tradução da tirada (grupo de versos com uma mesma rima assonante) inicial do poema, apoiado obviamente na versão adaptada que tenho em mãos.

De los sos ojos.....tan fuerte mientre lorando
tornava la cabeça.....y estava los catando.
Vio puertas abiertas.....e uços sin cañados,
alcandaras vazias.....sin pielles e sin mantos
e sin falcones.....e sin adtores mudados.
Sospiro mio Çid.....ca mucho avie grandes cuidados.
Ffablo mio Çid.....bien e tan mesurado:
«¡Grado a ti, señor,.....padre que estas en alto!
¡Esto me an buelto.....mios enemigos malos!»

Dos seus olhos.....tão fortemente chorando
voltava a cabeça.....e os estava olhando.
Viu portas abertas.....e trancas sem cadeados,
suportes vazios.....sem peles e sem mantos
e sem falcões.....e sem açores mudados.
Suspirou meu Cid.....por ter grandes cuidados.
Falou meu Cid.....bem e tão ponderado:
"Bendito sede, Senhor,.....pai que estai no alto!
Isto me foi tramado.....por meus inimigos malvados!"

Para acessar o Cantar de Mio Cid, neste link está a íntegra da edição de Colin Smith.

8 comentários:

Paulo Ferraz disse...

Muito bom seu artigo, creio que posso chamá-lo de artigo. Quanto à Espanha, enfim, o Carlos Magno já havia chamado a região da Catalunha de "Marca Hispânica", então, creio que o "eco" de Roma continuou e justificou a confusão entre Castela e Espanha. Quanto ao Cid, salvo engano, é uma herança moura, pois o mesmo (rs) antes de combater os mouros lutou ao lado deles. Abraços

Victor disse...

Além de tradutor e gramático, está atacando também de etimólogo. É isso aí, a audiência agradece. Abraço.

ana rüsche disse...

oi, snp!

puxa, muito bom! adorei o teu artigo, sim, artigo.

a planeta é uma ótima editora, curto o trabalho dos caras. eu li "el cid" numa edição facilitada na escola, creio que pela 7ª série, o rodrigo era um gostosão nas ilustrações, hehe.

o melhor é que vc retornou no final ao ponto de partida. e pergunta: então será que trocamos as raízes?! como explicar o inverso (que o español nos soa como pt arcaico)?!

parabéns. ficou foda. o melhor é a técnica de fotografar o livro em casa, hahá.

beijos

Geraldo disse...

Legal mesmo, está um verdadeiro pesquisador, até vejo escapando sorrateiramente pra sessão errada da biblioteca em Barcelona.

Acho que as diferentes razões pelas quais as línguas se parecem mutuamente arcaicas explicam o como isso acontece: enquanto pra eles o português é um espanhol com *grafia* arcaica, pra nós o espanhol é um português com *palavras* em desuso - como dizia um amigo meu, basta usar palavras que você normalmente não usaria, monotono em vez de chato é o exemplo de que me lembro.

Carol Marossi disse...

Faço minhas as palavras do Victor: a audiência agradece, maravilhada!

Besitos!

ana rüsche disse...

snp: vê se vc consegue responder o lance da edição sobre o satiricon do petrônio para o frias.

em http://rr.frias.zip.net

beijinhos

Fábio Aristimunho disse...

Bom que a postagem (o artigo?) agradou, estou bem empolgado com o livro.

Ana, a técnica de fotografar o livro foi cgupinhada do Peixe de Aquário, rs!

a/b

Daniel disse...

Bom artigo, mas vale lembrar que o uso de "Espanna" pode ser devido ao fato de a transcrição ser do século XIV, afinal os copistas não tinham pudor em editar esses textos, pelo motivo que fosse( às vezes até na boa intenção de facilitar a leitura para seus contemporâneos). Além disso Hispânia se referia, nessa época, à região da península ibérica (nome dado pelos gregos), portanto é arriscado tentar usá-lo como Nação ou País. Era mais uma denominação geográfica. E por último, vale relembramos que o documento é da Reconquista, o que nos permite pressupor que "hispânico" e "Cristão" são duas coisas que se confundem com frequência.